Vidro parte-se durante um ponto e clube é condenado a pagar 28.700€ a jogador

Vidro parte-se durante um ponto e clube é condenado a pagar 28.700€ a jogador

Um jogo de padel entre amigos em Maiorca terminou com ferimentos graves e, quase três anos depois, com uma decisão judicial que volta a colocar a segurança e a manutenção dos campos de padel no centro das atenções.

Um tribunal de Palma condenou um clube de padel de Maiorca a indemnizar um jogador em 28.700 euros, depois de concluir que a quebra de um dos vidros da pista esteve relacionada com uma manutenção deficiente da instalação.

O acidente aconteceu a 18 de agosto de 2023, durante uma situação perfeitamente normal de jogo.

O vidro partiu-se quando tentava devolver uma bola

O jogador, Juan Comas, disputava uma partida com três amigos quando teve de recuar para devolver uma bola alta que tinha ressaltado junto ao vidro.

Depois de realizar a jogada, entrou em contacto com o vidro traseiro da pista. Segundo os factos considerados provados pelo tribunal, não existiu qualquer impacto extraordinário nem um movimento fora do contexto habitual de um jogo de padel.

Ainda assim, o vidro partiu-se completamente e caiu sobre o jogador em inúmeros pequenos fragmentos.

Juan sofreu uma contusão craniana e múltiplas feridas na cabeça e noutras zonas do corpo.

A dimensão do acidente ficou ainda mais evidente quando o próprio jogador contou posteriormente o que aconteceu.

97 pontos e agrafos e cerca de 30 cicatrizes

Em entrevista ao jornal espanhol Última Hora, Juan Comas revelou que foi transportado de ambulância para a Clínica Palmaplanas, onde foi submetido a exames para verificar se existiam fragmentos de vidro alojados na cabeça.

Segundo o jogador, foram necessários 97 pontos de sutura e agrafos para tratar as diferentes feridas provocadas pelo acidente. Ficou com cerca de 30 cicatrizes e perdeu sensibilidade numa zona da cabeça.

Os médicos chegaram a admitir a possibilidade de ser necessário realizar um enxerto caso uma das feridas não cicatrizasse corretamente, algo que acabou por não ser necessário.

O impacto psicológico também permaneceu.

Juan, que tinha jogado padel durante cerca de dez anos, afirma que nunca mais entrou num campo desde o acidente e que atualmente sente insegurança perante os vidros das pistas.

O clube defendia que o impacto tinha sido anormal

Durante o processo, a empresa responsável pelo clube argumentou que o vidro era temperado, tinha 12 milímetros de espessura e cumpria as normas de segurança.

A defesa sustentava que um vidro com estas características apenas se partiria perante um impacto anormal ou uma utilização indevida da instalação.

O tribunal não aceitou essa explicação.

Os testemunhos dos jogadores presentes indicaram que Juan não seguia a grande velocidade e que o contacto com o vidro ocorreu durante uma jogada normal.

Para o juiz, não ficou demonstrado qualquer comportamento imprudente ou impacto de força excecional que permitisse responsabilizar o jogador pelo acidente.

Um aviso anterior sobre os suportes dos vidros

Há, no entanto, um detalhe particularmente relevante no processo.

Outro utilizador do clube declarou que, uma semana antes do acidente, tinha alertado os responsáveis para o estado dos elementos de borracha utilizados nos pontos de fixação dos vidros.

Segundo o testemunho, alguns desses elementos encontravam-se desgastados e já não absorviam corretamente as vibrações. O utilizador chegou mesmo a entregar um aviso por escrito na receção do clube.

Este elemento foi tido em consideração na decisão judicial.

O tribunal concluiu que o simples facto de um vidro cumprir determinada norma não significa automaticamente que toda a instalação seja segura.

Um vidro pode ter as características técnicas adequadas e, ainda assim, apresentar problemas relacionados com a instalação, os suportes, as tensões acumuladas, as folgas ou a falta de manutenção.

O tribunal aponta para manutenção deficiente

Na sentença, o juiz considerou que uma quebra desta natureza, sem um impacto suficientemente forte que a justificasse, era incompatível com um vidro temperado corretamente instalado e mantido.

A decisão atribuiu o acidente a um “deficiente” estado de manutenção da instalação e afastou a possibilidade de culpa exclusiva da vítima.

O julgamento realizou-se a 8 de abril de 2026 e a decisão favorável ao jogador foi conhecida a 3 de julho. A indemnização foi fixada em 28.700 euros pelos danos e lesões sofridas.

Os vidros fazem parte do jogo e da segurança

Ao contrário de muitos outros desportos, no padel as paredes da pista não servem apenas para delimitar o terreno de jogo.

Fazem parte do próprio jogo.

É perfeitamente normal um jogador correr em direção ao fundo da pista, aproximar-se do vidro, apoiar-se ou mesmo embater nele durante uma tentativa de recuperação da bola.

As regras da Federação Internacional de Padel estabelecem que os campos com paredes de vidro devem cumprir as normas aplicáveis ao vidro temperado ou laminado e que os materiais utilizados nas paredes devem possuir consistência adequada para a utilização prevista.

Por isso, garantir a segurança não termina no momento em que um campo é construído.

A inspeção dos vidros, fixações, ancoragens e restantes elementos estruturais deve acompanhar toda a vida útil da instalação.

Um caso que serve de alerta para os clubes

Com a rápida multiplicação de campos de padel em Portugal e no resto do mundo, casos como este funcionam como um alerta para uma área que nem sempre é visível para quem entra numa pista.

Um campo pode parecer estar em perfeitas condições e apresentar problemas em componentes que um jogador dificilmente conseguirá identificar.

Para os clubes, a manutenção não é apenas uma questão estética ou relacionada com a qualidade da experiência oferecida.

É uma questão de segurança.

E neste caso, um simples jogo entre quatro amigos terminou com dezenas de cicatrizes, quase três anos de processo judicial e uma indemnização de 28.700 euros.

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